quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ESTRELA, POETA E VAGALUME

Eu sou uma estrela. Não a mais brilhante - há outras maiores no céu. Não a mais perfeita - meu brilho não aquece um sistema inteiro. E sei que o sonho de todo poeta é alcançar uma estrela, é guardá-la para si, mantê-la ao seu lado. Mas eu sou uma estrela e nem sei de que grandeza, e reconheço ser difícil me mirar e não parar um pouco admirado.

Mesmo assim, só Deus sabe o quanto eu já sofri para polir esta minha superfície. Quantos caminhos amarguei solidão até descobrir que quem tem um brilho de amor para si mesma, consegue de alguma maneira aplacar a solidão de si e dos que me rodeiam. Tantas e tantas vezes eu sonhei com o poeta a cantar melodias e me prometer os sonhos mais bonitos. Em tantas promessas acreditei, que não foram poucas as vezes que me fiz cadente, e depois descontente ao céu voltei.

Um dia, eu estrela, encontrei um poeta diferente e por ele me encantei. Ele sempre me cantou as mais inocentes poesias, as mais finas melodias e mesmo desafinado eu reconheci na voz daquele poeta um possível par. E era sim... se eu disser que nunca vi maneira de cantar uma estrela mais doce, não estarei mentindo. Ele não faria mal, não feriria, nem me pediria para menos brilhar. Esse poeta jamais quis ofuscar meu brilho e ao contrário disso, sempre me pediu para ser mais radiante.

Eu quis tanto o poeta para mim e era tão belo o nosso laço que esqueci que na terra chorava um vagalume. Chorava tristonho o vagalume perdido. Amava o poeta, o vagalume. E de longe eu vi que era um amor sentido, dependente, mas não menos profundo. Tantos vagalumes haviam amado o poeta, mas aquele era belo também. Senti um carinho por ele, um carinho de estrela. Senti que poderia acabar os céus que o vagalume amaria o poeta - e que lhe importavam as estrelas? Por um tempo, furiosa, eu tentei impedir. Finalmente, eu estrela, escolhera meu poeta e por que deveria ele querer o vagalume? Depois de um tempo eu entendi que o poeta e o vagalume podem se amar e se olhar no mesmo plano. Depois eu entendi que o poeta guiaria o vagalume e que sua luz pequena, através das noites sem lua e sem estrela, seria seu guia fiel. Por que subtrair o poeta ao vagalume? Eu estrela, sei bem o que é tanto procurar. Ele te segue de maneira tão bonita, poeta. Nas luzes de seu olhar há tanto "não me deixe" que terminei por decretar que te amarei como a estrela acima do horizonte, perto da lua, longe da terra, longe do mar; deixarei ao teu lado o nobre vagalume. De vez em quando, te peço, canta para mim. Pensa que tua estrela, o amor dela e o amor que por ela você tem não morreram - viraram uma eterna poesia. O vagalume mais de ti precisa, vês como ele bebe teu hálito. Eu irei silenciosa amá-lo sem mágoa, porque se parto desta maneira é por amá-lo como estrela.

3 comentários:

Anônimo disse...

Um texto emocionante, de grande beleza e tocante verdade.

Parabéns!

José Luiz disse...

Que lindo poema...podia até ser musicado!
Só vou complementar: a sua garganta é um ninho de borboletas; quando canta elas voam multicoloridas desmanchando-se em nós, boquiabertos,em sutis toques.
Bjs

Sâmia disse...

Nossa! Que coisa mais linda de se ler... me tocou profundamente o que disse. Guardadrei como um fino presente para sempre em meu coração.

Abraço apertado amigo!
Sâmia.