domingo, 9 de janeiro de 2011

PORQUE SUBIR EM ÁRVORES.

Não conseguia descer da árvore. Não conseguia! Meu Deus, como aquilo era difícil. Apostava que a árvore tinha crescido uns três metros enquanto subia e quando quis descer, estava ali crescida, enorme, cheia de caminhos que não vi. E por que diabos subi? Hein? O chão não me parecia muito mais seguro? Olha lá o chão, agora menor, mais distante e tão desejado... 

O tão desejado chão. Queria vê-lo mais perto outra vez, não na velocidade da queda, claro. Queria poder sentir que corria segura, com os pés no certo, no plano, no prumo. Sem esses sobes e desces medonhos da árvore que cresce de maneira mágica!

Medo, medo, medo! Eu quero descer! Maldita hora em que subi aqui! O que eu estava na cabeça quando resolvi me arriscar assim? Bem... eu estava correndo, andando, brincando com minhas coisas, o cachorro cansou e foi beber água, o sol esquentou e fiquei cansada de correr sem nada mudar e então pensei: o que tem lá em cima? Inicialmente a árvore me pareceu subível. Calculei onde colocaria os pés; tinha um buraco ali, outra saliência acolá, pegaria no cipó da própria árvore e em instantes, o topo. O topo! O topo e suas frutas maduras; o topo e sua visão de tudo. Senti-me voando, mais alta que o mundo e como era bom subir em árvores. Dai pensei em como não pensei nisso antes. Ali poderia morar, não é? Tinha comida, as frutas me dariam parte da água que preciso e eu veria o mundo sempre do alto. Não arrumaria o quarto, não lavaria a louça, não arrumaria a bagunça, nem faria provas na escola! Meu mundo seria uma árvore.

Mas agora... eu queria fazer xixi. Precisa comer o bolo de abacaxi da mamãe. Dar um abraço apertado em meu pai. Ser pirraçada por meu irmão e fazer o mesmo com minha irmãzinha. Queria receber as lambidas de Totonildo. Amanhã eu tinha prova se não fosse morrer em cima desta árvore! Ai... se eu não fosse morrer seca aqui aproveitaria para dizer tanta coisa aos meus. Mas estou aqui e a árvore cresceu 20 metros depois que escureceu mais. Pior que nem um testamento, uma carta de adeus poderei fazer: cadê minha caneta e meu bloquinho de anotações? Morrer assim e ser achada mil anos depois numa expedição feita por extraterrestres!

Alguma coisa eu preciso fazer. Minha perna treme, minha mão treme, meu cabelo treme, minha voz some, e estou a ponto de fazer xixi nas calças. Mas isso não farei, porque imagina só eu ser encontrada pelos ET's toda molhada de xixi! Estou com medo, mas ainda tenho dignidade e é em nome desta dignidade que me resta, que tentarei fazer alguma coisa. Mas o quê? Pensa, pensa, pensa. Já sei. Como foi que subi aqui? Colocando o pé num canto e no outro, não foi? Bem, farei o mesmo. Ai... não vou conseguir! Mas e se eu descer sem olhar? Isso! Descer de costas como naquelas fitas que a gente voltava atrás? Vamos lá; morrerei como heroína, como alguém que não ficou parada sem nada a fazer por si mesma. Primeiro o pé aqui. Não posso largar daqui. Desço mais um pouco. E se eu segurar aqui nesse cipó e colocar o pé ali, então é só pular! Pronto, consegui!!!
Olha só. A árvore é baixa.
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[No dia seguinte]
Bom dia mundo!!! Hoje vou subir naquela jaqueira no quintal de Pedro!

2 comentários:

Marcelo disse...

Isto traduz um pouco do que você é. Embora você diga que seus textos são criações fictícias, este é bem real (pela minha ótica)... rsrs

Mostra o esforço de alguém querendo se vencer todos os dias.

Adorei!

Beijo.

Nєfєя disse...

Parece Cláudia, melodramática, segundo antes de pensar em subir na árvore, ponderando o que vai sentir se, por acaso, subir.


Uma delícia!


;D