quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CHEGASTE


Se eu soubesse que viria, de flores me vestiria dos pés à cabeça
Se de tua vinda me avisasse, talvez já me encontrasse com as luzes acesas
Acenderia muitas velas e cobrir-me-ia de cores
Não desperdiçaria os amores colocados em outras mesas
Se soubesse que teus risos me seriam o lembrete de felicidade tanta
De deitar-me em teus mantos
Não maldiria os prantos derramados em segredo
Esbagaçaria os medos em diversos estilhaços se o longe som dos teus passos
Não me levasse ao degredo de esperar por teus abraços por tanto tempo
Por que – vida minha – não me mandou uma missiva contando de tua chegada?
Poderia eu lavar-me da lavanda dos meus sonhos de menina embonecada
Sentar-me na varanda, balançar-me ansiosa à espera do calor destes teus beijos
E hoje que te vejo ao pé da porta, namorando-me desta maneira
Como faço com a surpresa de ver-te todo em meus suspiros
Onde ponho o nervoso riso de encontrar-me com tua boca - 
E que me tenhas como louca: esperei-te a vida inteira!

domingo, 12 de agosto de 2012

FILOSOFIA JOSÉ AUGUSTO


Cortei o cabelo essa semana. Passei semanas desejando isso, pesquisei, vi milhares de fotos, mil cortes diferentes, mas todos voltados para o que eu realmente queria fazer: cortar curto. Eu pegava a minha franja na frente do espelho e colocava de um jeito pra saber se ficaria legal. O resultado era sempre bom e eu já estava decidida que seria isso mesmo.
Geralmente, quando eu me decido por uma coisa - apesar da demora para isso – não volto mais atrás e no caso do cabelo é mesmo impossível voltar atrás depois da coisa estar feita. E da maneira que escolhi não teria outro jeito a não ser esperar crescer, rezar, fazer penitência e tal. Eu me apaixonei pelo corte curto e há muito anelava o sonho de fazer leveza na cabeça deixando para trás alguns gramas de pelo cheio de química.
Um namoro longo, repleto de olhares atenciosos, de detalhes minuciosos e eu prestei bastante atenção para não haver arrependimentos. Fui lá e fiz! Escolhi uma cabeleireira infértil que cobrou meus dois ovários e o útero pelo corte e me dei toda a sua tesoura. Ela veio rápida e sedenta, quase sem me dar chances para desistir. Pegou meus poucos fios e os desfez.
Saí do salão com aquela sensação de que tinha todo um bairro me olhando. De cabelos molhados fiz passos mais apressados, doida pra chegar em casa e dar meu jeito no cabelo. Louca pra escová-los e ajeitá-los ao meu modo. Já no meio do caminho eu comecei a entender Robert Pattinson perfeitamente. Nasceu em mim uma solidariedade sem tamanho a ponto de me irritar ao ver qualquer piadinha a respeito da traição sofrida por este ator.
Não falem de Robert! Só eu e ele sabemos o que é ser traído depois de um namoro longo: eu não queria ver nenhum vizinho. Entrei em casa com a sensação de estar me ocultando dos holofotes e flashs das câmeras perversas de Hollywood. Rezei nos últimos segundos antes de conseguir me arremessar pelo portão de casa à dentro, pedindo a Deus que sumissem todos os meus conhecidos e que nenhum olhar menos discreto pudesse fazer considerações sobre meu novo look. Deus me ouviu.
Consegui escová-los e só na base do chicote o leão que havia em mim [agora representado em forma de juba] foi domado. Eu tremia igual a vara verde, suava só imaginando como fazer para ir para o trabalho com aquela cara. Mas o pior ainda estava por vir. Meu noivo me mandava mensagens a todo momento dizendo que estava louco para me ver de cabelo cortado. Eu tive cólicas a tarde inteira imaginando esse encontro. Como dizer a ele que aquela mulher-leoa era mesmo sua noiva querida? Como dizer que não foram ladrões de cabelo que me roubaram a aparência e sim que eu paguei por aquilo ali? Foi a tarde mais longa de minha vida. Meus colegas de trabalho, gentis como sempre, me fizeram muitos elogios, mas isso só me acalmou a ponto de conseguir desempenhar minhas tarefas. Eu teria que sair dali às 19h e meu noivo viria me pegar no trabalho.
Quando deu 19 horas eu saí, peguei o elevador e desejei que ele tivesse freios para retardar o instante do encontro. Pensei por dois segundos em agarrar nos cabos de aço igual a um gato e não descer nunca mais – ou até que eu voltasse a parecer gente. E ele estava no saguão, sentado numa poltrona e olhando o celular; pensei “deve estar ligando pro SAMU”. Levantou a cabeça e quando me viu, sorriu dizendo: “amor, você está linda!”. A partir deste momento eu resolvi ser adepta da filosofia José Augusto: “mente pra mim, me ajuda a viver!”.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

STATUS: DISPONÍVEL.


Sempre me questionei sobre algumas ações minhas. Na verdade, a questão é como executo determinados papéis que possuo – por encargo ou escolha – nesta vida. Eu erro, tu erras, ele erra e erramos todos. Mas como é complicado lidar com o erro! Quase sempre nos fazemos aquela pergunta quando dá uma merda qualquer: “onde foi que eu errei?”. Daí, ao descobrirmos onde erramos, partimos algumas vezes para a punição.
Na atitude de auto-punição nós não modificamos nada ao nosso redor, tampouco em nosso interior. Onde está a reabilitação? Será que o culpado se permite reabilitar? Será que o culpado se permite rever os próprios passos na intenção de fazer diferente do momento da constatação do erro em diante? Eu creio que não. Mas o responsável sim. O responsável revê seu caminho, identifica o erro e se propõe a modificar o que desacertou. Aqui entra o ponto “vítima” da minha reflexão de agora: a disponibilidade.
Não... não estou falando do status do bate-papo. Estou falando de disposição íntima para realizar determinada coisa. Disposição é tudo! Estar disponível é permitir que as ferramentas pessoais entrem em ação. Estar disponível é permitir que a constatação do erro sirva para modificação da realidade, pois podemos ser virtuosos, trazer características positivas, ter bom coração, mas sem boa vontade, ou seja, disponibilidade ao acerto, não teremos direcionamento consciente de nossas ações.
Acostumamo-nos a pensar que a vida é o arranjo que parte sempre em direção ao equilíbrio. Correto. Entretanto, a nossa inteligência deve ser testada e ampliada para compreender que podemos interferir no processo de reequilíbrio estabelecendo o domínio das nossas atitudes – sobretudo o domínio emocional. Eu falo de reequilíbrio, porque faz parte do processo de aprendizado o “arrumar-desarrumar-arrumar”. Erramos todos porque é fato que agiremos pela ignorância e o desconhecimento nos faz desbravar novas terras, que uma vez desbravadas, agregam em nós o conhecimento, que por sua vez nos faz firmar atitudes novas e que nos impulsiona para o desconhecido e assim sucessivamente. Não errar é não viver. Errar não é problema, problema maior é quando não nos disponibilizamos ao acerto.
O automatismo rege a ignorância; no momento que nos tornamos conhecedores a única coisa que nos impede de acertar é a disposição íntima para a real modificação interna e externa. A vida vai se equilibrar depois do desacerto? Sim, mas não é melhor que participemos disso para que ela não faça isso cegamente? Vamos a um exemplo concreto? Transporte de substâncias através da membrana de uma célula animal. Naturalmente elas podem ser transportadas obedecendo o gradiente de concentração e, portanto, sem gasto de energia. Mas há o caso do transporte ativo, que é feito contra o gradiente de concentração e com gasto de energia. Estar disposto é isso: é gastar energia, movimentar a inteligência, emocional também, para gerenciar a direção da própria vida.
E estar disposto não é bradar com todo pulmão “eis-me aqui”, é dizer que está disponível para agir e não somente sofrer a ação automática da vida, que promove o equilíbrio novamente. Refletir acerca do ponto onde errou, esforçar-se para perceber como deveria ter agido, identificar as possibilidades de conserto e dizer “estou disposto a fazer tudo para ser melhor”.

quinta-feira, 5 de julho de 2012

RÁPIDO

O amor, meus caros, despenteia! Amassa roupas, suja os dentes, arranca os brincos, quebra os saltos, tira o batom. O amor vendavalva todas as coisas vãs. Depois do amor só resta o certo, o básico, o mínimo necessário, um cômodo com uma porta e uma janela e um buraquinho pra respirar. Tudo o mais vem abaixo. Toda lei - por mais física - fica esquecida, a gravidade é abolida, a distância é relativa, o tempo cuida de correr louco. Einstein começa a falar de amor e a saudade é uma constante inversamente proporcional à vontade de estar dentro – porque perto é pouco.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

AOS SEUS OLHOS


E há o mar.  Há aquele rugir das ondas, mordendo as areias da praia. E há o mar ronronando ao pôr do sol, negando quem é – ou vestindo-se de outros sais. Enroscado nos novelos d’água, há mares de pó, sedimentados na Terra Coração. E quem dirá que é água ou terra a natureza do mar? Fundo e superfície são faces de um mesmo ser.

Não pode ser que haja lógica em querer permanecer em calmaria, quando o dia anuvia-se de negro, quando o vento uivando nos ouvidos, faz dos cabelos navalhas nos olhos e o céu chora de tristeza, perfurado de trovões. Aí o mar explode, aí a água entra em guerra e cospe para longe os mais bravos guerreiros ou os incautos marinheiros que ousam lhe tocar as costas. E todos temem o mar, e todos julgam o mar, e todos buscam as bancadas de areia, fugindo da liquidez assassina. E o mar ergue seus braços mais alto e abraça o céu...

Quando passa, o vento lambe o mar, a onda faz amor com a areia, o mar, engravidado de sereias, volta ao seu lugar. A paz canta nas pequenas conchas, o céu enxuga as lágrimas nas coxas das nuvens e ele, todo dengoso, mia em ondas baixinhas. E correm seus admiradores para seus braços! E vinga a poesia, a melodia, as mais lindas canções. O mar é um amigo, cobertor dos amantes, que inconvenientes se abraçam de corpo todo sob suas águas e se embalam junto com suas ondas. “Ai, mar, eu te amo! Sua existência me inspira!”, dizem os elegantes. O mar responde, pensando incompreendido, “jamais quis ser paisagem num postal”. Porque sabe o mar que para ser inteiro é preciso ser todo e talvez o tolo não consiga compreender, que só mergulhado, aberto e constante é que se avança em sua natureza.

Por isso que na hora da tormenta, no momento da solidão, quando  bravo se encontra, o mar corre pro céu, pois só ele lhe vê inteiro e sabe de seus segredos, sem jamais ocupar o seu lugar. Não foje do mar, o céu. Não condena sua revolta. E espera, sem nenhuma porta, que tudo se transforme. Depois... depois os dois se casam em azul, num dia luminoso e só eles é que sabem porque dividem a mesma cor.

{aos olhos de mar que miram minha alma}

terça-feira, 27 de março de 2012

[SÓ] VASO


Não desejo que meu coração se reagregue, porque estou ferida e sei que isso é meu. Não há culpados, nem desordeiros que avançaram sobre as tendas empoeiradas e derrubaram tudo; eles vivem como sabem - eu expus o que tenho. Fui eu, na vã escolha do passado, que optei por morar no deserto. Exilei-me dos ventos do litoral, exilei-me da segurança dos barcos ancorados e fui ter com mar bravio. Depois dele, só deserto. Nada de mar e rio, a não ser o peito - correndo em leito salgado.

Os vasos caídos, os cacos nascidos e mais uma vez a cola retorna às minhas mãos tentando reaver com arte a parte que sobra do meu coração. E parece que ele sempre sobra. Por isso desisto de colá-lo e irei deixá-lo nos pés do deserto, bebendo da areia que chove dos montes movediços e cantantes que vejo de perto. Tudo que crio aqui se esvai e esta parte que o deserto me subtrai não faz falta nas futuras canções.

Melhor outro dia ter um novo vaso e este quebra agonizante, abraçado à dor uivante de ter morado no castelo pisado por bandoleiros. O que levo aqui comigo é outra coisa, outro abrigo que oferto ao mais corajoso, destemido beduíno. Não é nenhuma riqueza, nada que os salteadores tenham me levado. Não reluz como ouro, não compra comida e casa e não pode ser vendido, vilipendiado ou ferido. É o conteúdo dos vasos quebrados: água de esperança. E o coração que permaneça partido e que o tempo o corroa, transforme-o em areia; que o vento o leve e ele volte aos pés do mar em que estava antes de morar nas areias de tão ingrato deserto.