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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

CHEGASTE


Se eu soubesse que viria, de flores me vestiria dos pés à cabeça
Se de tua vinda me avisasse, talvez já me encontrasse com as luzes acesas
Acenderia muitas velas e cobrir-me-ia de cores
Não desperdiçaria os amores colocados em outras mesas
Se soubesse que teus risos me seriam o lembrete de felicidade tanta
De deitar-me em teus mantos
Não maldiria os prantos derramados em segredo
Esbagaçaria os medos em diversos estilhaços se o longe som dos teus passos
Não me levasse ao degredo de esperar por teus abraços por tanto tempo
Por que – vida minha – não me mandou uma missiva contando de tua chegada?
Poderia eu lavar-me da lavanda dos meus sonhos de menina embonecada
Sentar-me na varanda, balançar-me ansiosa à espera do calor destes teus beijos
E hoje que te vejo ao pé da porta, namorando-me desta maneira
Como faço com a surpresa de ver-te todo em meus suspiros
Onde ponho o nervoso riso de encontrar-me com tua boca - 
E que me tenhas como louca: esperei-te a vida inteira!

segunda-feira, 21 de maio de 2012

AOS SEUS OLHOS


E há o mar.  Há aquele rugir das ondas, mordendo as areias da praia. E há o mar ronronando ao pôr do sol, negando quem é – ou vestindo-se de outros sais. Enroscado nos novelos d’água, há mares de pó, sedimentados na Terra Coração. E quem dirá que é água ou terra a natureza do mar? Fundo e superfície são faces de um mesmo ser.

Não pode ser que haja lógica em querer permanecer em calmaria, quando o dia anuvia-se de negro, quando o vento uivando nos ouvidos, faz dos cabelos navalhas nos olhos e o céu chora de tristeza, perfurado de trovões. Aí o mar explode, aí a água entra em guerra e cospe para longe os mais bravos guerreiros ou os incautos marinheiros que ousam lhe tocar as costas. E todos temem o mar, e todos julgam o mar, e todos buscam as bancadas de areia, fugindo da liquidez assassina. E o mar ergue seus braços mais alto e abraça o céu...

Quando passa, o vento lambe o mar, a onda faz amor com a areia, o mar, engravidado de sereias, volta ao seu lugar. A paz canta nas pequenas conchas, o céu enxuga as lágrimas nas coxas das nuvens e ele, todo dengoso, mia em ondas baixinhas. E correm seus admiradores para seus braços! E vinga a poesia, a melodia, as mais lindas canções. O mar é um amigo, cobertor dos amantes, que inconvenientes se abraçam de corpo todo sob suas águas e se embalam junto com suas ondas. “Ai, mar, eu te amo! Sua existência me inspira!”, dizem os elegantes. O mar responde, pensando incompreendido, “jamais quis ser paisagem num postal”. Porque sabe o mar que para ser inteiro é preciso ser todo e talvez o tolo não consiga compreender, que só mergulhado, aberto e constante é que se avança em sua natureza.

Por isso que na hora da tormenta, no momento da solidão, quando  bravo se encontra, o mar corre pro céu, pois só ele lhe vê inteiro e sabe de seus segredos, sem jamais ocupar o seu lugar. Não foje do mar, o céu. Não condena sua revolta. E espera, sem nenhuma porta, que tudo se transforme. Depois... depois os dois se casam em azul, num dia luminoso e só eles é que sabem porque dividem a mesma cor.

{aos olhos de mar que miram minha alma}

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

CARTA PARA MINHA TIA

Oi Tia Sônia,

Como estão as coisas aí? Saudades imensas! Você e suas maneiras fazem falta, sabia? Sabia, né? Você deve ter visto o vídeo que Carine fez para você e que também fez todo mundo chorar. Coisas de Carine – ela junta os sentimentos e depois larga uma bomba. Depois desse vídeo eu resolvi te escrever uma carta. Sempre penso muito em você, sempre lembro o jeito que você me chama [Samoquita] e ainda sinto ciúmes porque você prefere Dai. Nem adianta negar, viu tia Sônia?! Todo mundo prefere Dai, mas eu sei que as pessoas me amam do jeito que sou e com você não é diferente: seu amor por mim e meus irmãos sempre foi inegável e sobreviveu a anos de distância física... continua sobrevivendo, eu sei.
Eu queria ter dito mais vezes que te amo. Até chego a lembrar dos murritos, besliquitos e mordidas com certo saudosismo. Isso me faz pensar que certas dores da vida são muito pequenas perto da dor de não poder abraçar a quem se ama. Mas o que estou dizendo? A gente se abraça muitas vezes!!!  Mesmo depois de sua viagem, eu sei que você volta e abraça a cada um de nós. Briga com uns, bate palmas para outros, puxa um pela orelha, dá conselhos a outros, segue cuidando dos que ama. E a gente vai se virando por aqui até chegar o Natal em que aquela sua “arvorona” será armada na sala de sua nova casa e estaremos todos lá.
Será que você ainda briga com Sheik e Ringo quando eles se pegam na briga? Vixe, tia Sônia, deve ter uma galera de cachorro pra você cuidar, né? Paloma, Dalila, Sheik, Ringo e outros que nem sei o nome. Tem Lolita e Dhust que também devem estar em sua casa. Eu falo como se a única coisa que você faz aí é cuidar de cachorro. Duvido. E as rosas brancas? E as outras flores? E os demais amores, né? Existe muita novidade que a gente aqui nem sonha. Ou sonha? Rs
Eu guardo os vestidos que você me deu, as blusas, as coisas todas como uma bobona agarrada a evidências materiais da sua lembrança. Sei que tudo isso é dispensável, mas você sabe que cada uma destas coisas é a materialidade de meu amor.
Eu não gostei que sua viagem foi perto de meu aniversário, mas acredito que a passagem estava marcada por gente bem maior que a gente e não é justo questionar; hoje eu sei que você é feliz e os hamsters nem devem mais existir, né? Essa é uma lembrança que me faz gargalhar sempre! E o bolo de algodão com álcool: “nãaaaaaaaaaoooo Sâmia!!! Isso tudo, minha filha?”. Sem contar que quando eu ia dormir nas “horas mortas” era motivo de falação eterna. Hoje vou dormir mais cedo para te encontrar.
Vou parar por aqui. Não sei como o Correio te entregará esta carta, mas tenho certeza de que ela lhe chegará nas mãos. Minha lembrança não é só alimentada de saudades – é lavada de certezas. Te amo e sempre te amarei e muito obrigada por ter sempre sido a tia-mãe de Priminho, Samoquita e [ôooo]Dai.


Sâmia.

P.s.: Eis o vídeo:

quarta-feira, 27 de julho de 2011

AS FLORES

Se tiver flores para as quais possa regar teu amor, não se pergunte por muito tempo se elas merecem para fazê-lo. Regue o que enflorece sua vida sem pensar no tempo diante de seus pedidos insistentes de amor. Apenas veja o quanto seria sem cor e sem vida a sua vida sem as flores que te cercam. Quem não tem algumas flores? Sem tanto esforço assim você vai perceber aquele vaso ao lado de sua cama, ao lado de suas dores, atrás de suas farsas - há sempre as flores que perfumam suas lembranças, sua toca, suas poças.

Ame-as, não as deixe murchar para dizer que as ama tanto, que gostava tanto quando elas balançavam sorridentes no vento das tempestades que te cercaram por dias tristes. Não as deixe sequer perceber que havia dias que você não as via, e ainda que elas bem saibam disso, não as deixe jamais ter certeza. Foram elas que te trouxeram as borboletas. Sem elas o caminho seria só pedra, só daninha erva.

Cada um tem sua flor, não irei aqui nominá-las. Que cada qual faça o esforço de reconhecê-las em seus vasos. Dê a cada uma delas o título mais adequado, o lugar mais arejado de sua alma. As minhas estão aqui comigo, no terreno mais grato e fértil de meu coração. [AACCDD]

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

PISTAS

Vem, vem depois de mim. Segue as pistas que te deixo, o cheiro que exalo, as reações que em ti disparo e vem, vem depois de mim.

Treme, treme ao me ver. Mostra a tua surpresa, tropeça em minha direção, sua e sonha em pegar em minha mão. Trema de emoção!

Ri, ri de felicidade. Sorri gostosamente aliviado, ri sem saber o que dizer, sorria quando eu disser que gosto de você. Se sentir vergonha, sorria mesmo assim.

Se nada disso você fizer, quando eu passar, não vou olhar para o lado nem para trás. Não vou jogar meu charme para vê-lo se perder nos olhos de um incapaz de me perceber. Não vou confessar que gosto de você. Não vou vestir as saias coloridas, nem despir-me inteira em pele e medos. Eu vou fingir que não sei que sonha em me ter. Se não vier, tremer e sorrir, como saberei que é você?

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

FUTURO DO PRESENTE

Mando-lhe esta carta do passado. Um dia quando a encontrar, entenderá o porquê. Não consegui dormir e penso como te encontrarei. Como será você? Como serão seus olhos e o que eles me dirão? Você não é idealizado por mim nos detalhes mais passíveis de mudança - a imagem. Eu idealizo seu caráter, suas maneiras, seu jeito de me entender ou de se entregar pra mim. Não te conheço, mas já te pressinto. Nunca te vi, mas já te adivinho. 

E sei que de onde está, também é assim que se sente em relação a mim. Só não sabemos quando ou onde, mas sabemos que, sim, estaremos um dia frente a frente. E veja bem: eu já te amo. Não nos menores atavios, e sim nos indispensáveis detalhes. E quando me olhar, saberá que sou eu - porque o que há de ser tem a força de se impor. O seu amor por mim será indiscutível dentro de seu coração. Não te amarrarás nos preconceitos, na temporalidade, nos próprios medos. Será o homem que terá a força de me acompanhar. E a você, sem meias verdades, eu me entregarei.

Não sei porque se demora, mas sei que está no tempo correto. Não sei quando virá, mas tenho certeza que chegará na hora aprazada. Não sei onde nos veremos pela primeira vez, mas já são exatas as coordenadas deste local.

E quando ler esta carta [não idealizo em que tempo] saberá que eu te esperava e que guardava um tesouro onde se lê inscrito: "para ser entregue na alma". E lá estarei com o coração desembrulhado, sem papéis coloridos, sem fitas brilhantes, somente ele a te dar. Haverá um abraço e nada te perguntarei,  nem pedirei explicações por onde esteve antes que fosse meu.

Agora, numa garrafa brilhante, lanço ao mar esta carta e dormirei tranquila, porque sei que ela chegará ao seu destino.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ESTRELA, POETA E VAGALUME

Eu sou uma estrela. Não a mais brilhante - há outras maiores no céu. Não a mais perfeita - meu brilho não aquece um sistema inteiro. E sei que o sonho de todo poeta é alcançar uma estrela, é guardá-la para si, mantê-la ao seu lado. Mas eu sou uma estrela e nem sei de que grandeza, e reconheço ser difícil me mirar e não parar um pouco admirado.

Mesmo assim, só Deus sabe o quanto eu já sofri para polir esta minha superfície. Quantos caminhos amarguei solidão até descobrir que quem tem um brilho de amor para si mesma, consegue de alguma maneira aplacar a solidão de si e dos que me rodeiam. Tantas e tantas vezes eu sonhei com o poeta a cantar melodias e me prometer os sonhos mais bonitos. Em tantas promessas acreditei, que não foram poucas as vezes que me fiz cadente, e depois descontente ao céu voltei.

Um dia, eu estrela, encontrei um poeta diferente e por ele me encantei. Ele sempre me cantou as mais inocentes poesias, as mais finas melodias e mesmo desafinado eu reconheci na voz daquele poeta um possível par. E era sim... se eu disser que nunca vi maneira de cantar uma estrela mais doce, não estarei mentindo. Ele não faria mal, não feriria, nem me pediria para menos brilhar. Esse poeta jamais quis ofuscar meu brilho e ao contrário disso, sempre me pediu para ser mais radiante.

Eu quis tanto o poeta para mim e era tão belo o nosso laço que esqueci que na terra chorava um vagalume. Chorava tristonho o vagalume perdido. Amava o poeta, o vagalume. E de longe eu vi que era um amor sentido, dependente, mas não menos profundo. Tantos vagalumes haviam amado o poeta, mas aquele era belo também. Senti um carinho por ele, um carinho de estrela. Senti que poderia acabar os céus que o vagalume amaria o poeta - e que lhe importavam as estrelas? Por um tempo, furiosa, eu tentei impedir. Finalmente, eu estrela, escolhera meu poeta e por que deveria ele querer o vagalume? Depois de um tempo eu entendi que o poeta e o vagalume podem se amar e se olhar no mesmo plano. Depois eu entendi que o poeta guiaria o vagalume e que sua luz pequena, através das noites sem lua e sem estrela, seria seu guia fiel. Por que subtrair o poeta ao vagalume? Eu estrela, sei bem o que é tanto procurar. Ele te segue de maneira tão bonita, poeta. Nas luzes de seu olhar há tanto "não me deixe" que terminei por decretar que te amarei como a estrela acima do horizonte, perto da lua, longe da terra, longe do mar; deixarei ao teu lado o nobre vagalume. De vez em quando, te peço, canta para mim. Pensa que tua estrela, o amor dela e o amor que por ela você tem não morreram - viraram uma eterna poesia. O vagalume mais de ti precisa, vês como ele bebe teu hálito. Eu irei silenciosa amá-lo sem mágoa, porque se parto desta maneira é por amá-lo como estrela.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

SÓ TINHA DE SER COM VOCÊ

Tem certas canções que se deve tocar só uma vez. Tocar para uma só pessoa.
Tem certos momentos que só acontecem só uma vez. Com uma certa pessoa.
Há partes guardadas que só se acessam uma vez - por uma pessoa.
Há portas fechadas que só se abrem uma vez - por aquela pessoa.
Não adianta fazer repetir a música que o som não acontece. Não adianta ir ao mesmo lugar que o momento não se repete. Não adianta se dar de outras maneiras, nem entrar pelas janelas que não se repetem as pessoas, nem se escancaram os caminhos da alma.
A música - havia de ser pra você.
O momento - havia de ser com você.
As partes de mim guardadas - haviam de ser pra você.
As portas fechadas - haviam de te deixar entrar.
Se assim não fosse, não haveria mais azul-céu, não existiria mais paz-teus braços, não seria amor-seu cheiro. Só haveria céu, braços e cheiros. Só seriam mais azuis, paz e amores. Mas sem você nada disso se especializaria em mim.
Você que me conhece e quer mais me saber, entende que sempre fui sua e tudo isso havia de ser pra você.

{texto suspirado na música "Só tinha de ser com você", Tom Jobim}

terça-feira, 19 de outubro de 2010

EXPLICANDO

Como resolvi te amar? Não é um caminho fácil de descrever, portanto não o farei. Mas posso fazer assim: posso te dizer como te amarei. Amarei de uma maneira que nunca amei e como ninguém nunca deitou em meu coração.

Esta noite sonhei com você e a sensação é de que lhe entregava todo meu calor - mas eu ainda permanecia quente. Eu não morria de amar, porque amor nem mata. Eu tinha resolvido amar sem cuidados, sem movimentos pensados e palavras escolhidas. Então te amei. Acordei te amando. Morrerei deste jeito.

Não sentia frio e desde que te amo é mesmo assim - sem ventos fortes, sem mares revoltos, sem tremores de terra. Eu elegi você pra ser pra sempre e todos os fenômenos se dobraram a isso. Até a inveja e o medo. Até tudo de mais instável neste mundo, em mim e em você ganha calmaria.

Não são promessas: é verdade. Embora sinta vontade de subir escadarias, rezar novenas, acender velas e dizer amém; faria tudo isso para passar o tempo e estar contigo novamente. Cada vez que vejo você é como se todos os sentidos fossem perdidos junto com os meus. E isso não é poesia: é saudade. E os ritos diários ganham ainda mais automatismo quando você liga e diz: "tô pensando em passar aí pra te ver, vai fazer alguma coisa mais tarde?". Sinto vontade de responder: morrer de saudade quando você for embora. É que o tempo nesse momento pára. Quando estou contigo ele dispara e depois se arrasta na lama como um soldado em treinamento.

O meu simples jeito de amar é só um coração que resolveu abrir as cortinas e dizer pela primeira vez na vida: entre e fique à vontade. Mas fica pra sempre.

Entendeu?

sábado, 2 de outubro de 2010

CONTANDO SEGREDOS

Saudades de você e do bem que me quer. Como pode, meu Deus, amar-se tanto uma mulher? Elas são esquisitas, choronas, dengosas e frágeis [nem todas], mas deve ser porque são cheirosas, macias, risonhas e inteligentes. Vai saber, né? Por isso é que sinto saudade de você, porque você consegue me amar do jeito que sou: mulher. Às vezes - menina. Com esta memória de passarinho, que esquece de datas e se lembra de cantar. 
Estou sentindo seu cheiro, sabia? Parece mágica. Estou, realmente, sentido o seu perfume, como se a saudade conseguisse transportar máteria. Na verdade, eu sempre soube que saudade transporta muita coisa, inclusive, pedaços de meu coração. Ah! Mulheres são exageradas. Mas você ama, né?
Eu tô triste e feliz e porque sou mulher não consigo explicar o porquê de nada disso. Nem adianta tentar colocar tudinho numa prateleira e racionalmente discernir motivos para este misto de sentidos; você sabe que eu derrubo tudo, que confundo sua arrumação, que estrago seu tapete fazendo minhas colagens e você só sorri. E num sei pra quê lembrei-me de seu sorriso. Agora é que perco meu pinguinho de juízo e sem juízo assim, deste jeitinho, é que sinto sua maior vontade de me proteger. Sei que pensa assim: "vou abraçá-la até que ache o tino", daí eu não acho mesmo pra ficar agarrada em você.
Mas quem te protege sou eu; quando acha que já sabe das respostas eu te mostro meu senso de orientação e o mapa de cabeça para baixo. Das coisas que não quis ver, das coisas que nem quis saber e das outras que te sonegaram - eu sabia. E é por isso que meu colo é infinito, para que mais ninguém te encontre.
Vou lhe fazer um pedido e quero que anote aí [como se fosse preciso pedir]: não vamos brincar de segredos, porque me despi dos mistérios assim que me vi em seus olhos. Depois disso eu também me pergunto: como pode, meu Deus, amar como uma mulher?





sexta-feira, 1 de outubro de 2010

AQUELE ABRAÇO!

Abraço é engraçado. Lembro sempre mais dos abraços que dos beijos. Beijo é pequeno e abraço é gigante. É corpo todo, é um mundo inteiro que se abre e se encontra. Lembrança... saudade... cabeça no ombro, pé no pé, os braços selados por detrás dos corpos e respiração de "te achei". Sem lá fora, sem mundo todo, sem mais quem passe na porta, sem mãe, sem pai, sem outros alguéns - só aquele abraço. E eu te amo ao pé do ouvido.
Estou sentindo a falta do abraço e parece que vou sentir sempre esta falta, ainda que o tenha todos os dias [um dia]. Abraço mata e dá sede de mais abraço. Engraçado que sentindo sede e soltando água; vai entender a saudade!
Como é que alguém pode, meu Deus, viver tanto tempo sem abraçar? Não estou falando daquela coisa social de cumprimento vão. Não. Eu estou falando do enlace de alma e de um querer tão intenso que faz o coração correr a gargalhadas. A mão esfria, o sorriso fica nervoso e dançam os olhos [nos olhos]. Momento cri-cri-cri porque não se precisa das palavras e nem se sabe o que dizer e sabendo não há necessidade. Abraço rouba tudo: ar, segredos, medos, dúvidas, certezas.
E num dia destes receberei aquele abraço certeiro que transforma meio num inteiro, que transmuta rio em mar. E é aí que mora a graça do abraço: são dois corpos em direções opostas, mas almas que vão para o mesmo lugar. 

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

JOÃO E MARIA - DAS CARTAS DE SETEMBRO.

Hoje encontrei-me algo assim: perdida em ti. Sentei-me ao teu lado, ouvi o silêncio das árvores, o batuque das vozes, o assovio dos deuses - era ali o recanto que nos escolheu. Falei de planos, falei que eles servem, mas não para tudo. Coisas existem que despejam em nossos planos uma pitada de "e agora?" e quando vemos já estamos improvisando uma nova felicidade. Mas tudo isso, meu amor, é escolha. Diante da vida - eu disse e você sabe - não se encolha!

Nem te peço para encarar o sol de frente; sem rayban não dá! Vezes há que é bom andar olhando o chão. Noutro dia, achei 40 reais e comprei sorvete [você adora]. Mas não é sempre que se acha grana no chão, tem dia que é só grama, tem dia que é só rastro, tem dia que é só passo e outro que é só pão - os que Joãozinho jogou e os desgraçados-passarinhos-esfomeados comeram. Eu não disse? João tinha planos, mas foram destruídos por bicos famintos e delgados. Não os queira mal, como eu. Aliás... e pensando bem, eu não odeio mais os pássaros. Eles inventaram um novo destino aos meninos e acredite que a vida fará o mesmo com você.

Erram sempre o nosso nome e isso é muito engraçado, porque por mais expliquemos, ninguém se acostuma tão fácil com o diferente. Porque não quer ou porque não pode, há gente que fecha os ouvidos e escolhe não ouvir. Não faz isso, tá? Ouça! Abra os olhos e ouça a vida! Ela fala com as cores, com os mil e um amores e todos eles mais eu - que nunca vou me calar. Meu passo é grito e com minha voz de metro eu alcanço o que quiser e contigo eu aprendo a querer. Há pessoas de todo tipo, mas nenhuma delas é você. Seu destino pode ter mil passarinhos, mas não deixe de jogar o pão, porque - como eu prometi - estarei como Maria, sempre ao seu lado segurando sua mão.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O MUNDO É BOLA.


Ventam os destinos em pequenas porções de saudade. Buscam-se e não sabem. Nascentes diversas, corrimãos separados, brinquedos diferentes. Crescem achando que o mundo é uma reta, mas é bola. E sendo bola tudo se junta: destinos, corrimãos, brinquedos. E foi bem assim. Uma platéia, uma cantante, olhos brilharam, o ímã se fez.

O que se sabe, desde então, é que o mundo [sendo bola] deixou que as coisas se juntassem, fingindo que assim faziam a sós; mas não, até o mundo pede para que - futuramente - se haja mais brinquedos, destinos e corrimãos. Amém.


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

CONJUGANDO VOCÊ.

A porta se abriu, se abriu um sorriso, os braços se abriram e o coração.
Os olhos se fecharam, fecharam-se os braços, fechado o passado, o encontro - então.
O medo perdido, perdida a vergonha, perdidamente apaixonada, [das horas] perdi a noção.
Corri da tristeza, correu-se um calor, corri pro teu colo  - achei-me no amor.
Tocados os sinos, toucou-me a alma, tocada de calma, em ti eu toquei.
Senti arrepios, senti um desejo, sentidos e afagos - senti que amei.
Esqueci-me das coisas, esqueci-me em teu corpo, esqueci-me dos rostos antes do teu.
Matei a saudade, matando minha sede, matei-te de beijos, a solidão morreu .
Cantei o teu nome, cantou a aurora, cantado o riso, cantou-se a canção.
A porta fechada, os olhos abertos, os braços tocados, cantado o coração, esquecido o passado. A alma aberta, esquecidos os sinos, perdida em afagos, morta de vergonha, sentido o calor. Corri o teu corpo, perdi minha calma, achei os teus olhos, senti a paixão. Achei o teu colo, matei a tristeza, toquei o teu riso. E agora eu te digo, com todos os verbos, o que eu sinto é eterno e nem pode ser vão.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

SUSPIRAÇÃO.

Há suspiros inconfessáveis. São ventos que levam segredos e desafogam o coração. Há suspiros inaudíveis. São partes de melodias que só tocam a alma de quem sabe. Há suspiros que doem. São pedras que ferem a lembrança de quem ama. Escorregam por lágrimas caladas, entregam o pecador, aquele que sofre de amor, que pena na espera que alimenta a ansiedade. Suspiros sem doce algum.
Uma gota de lembrança suspensa no ar, mandando embora o sossego, deixando vacância no olhar que busca um emprego nalgum lugar - onde está coração? Sei não. Profunda inspiração, três vezes e rápida: lá se vai meu juízo. Expiração certeira: galopa de volta a realidade.
A alma que feita por Deus num momento como o meu, não é de outra coisa senão de suspiros. Sopros são para corações tranqüilos, sem o menor ímpeto. Minha alma foi suspirada e hoje me encontro aqui, viva de interrogações, morta de saudade. Suspiros vêm de almas que são bóias furadas, que deixam escapar o vento da dúvida, que flutuam no oceano do desânimo e do medo. Perdem de si um pouco mais com o vento, mas nada de gastar os tormentos que tentam sair por um fino buraco; é proporcional inversão: quanto mais se suspira, mais se está cheio do que se pôs pra fora.
Vai medo, vai embora! Desgruda de meu pensamento, vai junto com este sopro e leva uma carta pro mundo - este vento de 5 segundos é um vendaval de desejo. Não o quero assim. Prefiro abrir espaço para as brisas em que se transformam os suspiros que de mim fogem quando penso no dono dos meus ais; embalar as velas dos sonhos que partem do cais de saudade a não mais ter este desassossego ébrio. 
Suspiro é o ar que se move em direção marcada e busca com seus braços voláteis apagar o fogo da alma inteira - mas é vão.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

POR VOCÊ

Vi, mas não sabia que por você cantaria em alta voz o hino do Bahia; mas quem adivinharia? Era para ser assim, mas só você sentia. Não quis crer que o óbvio seria o certo, que o inexplicável estaria tão perto. Deve ser assim: luzes fortes cegam, coisas belas emudecem-nos, o simples nos confunde; estas coisas só se sabe com o coração aberto. E o meu enlouquecia...
Côncavo e convexo, opostos que se encaixam e mesmo que um chinês chato nos diga o contrário - fomos feitos um para o outro. Por você eu compro prateleiras, arrumo minhas idéias, meias, livros, sapatos, desculpas. Assereno meus ímpetos, adoço meus instintos, solto meus grilos. É por você que sorrio nas manhãs de chuva e molho fronhas de saudade. Tiro o batom, faço as unhas e depois esqueço tudo isso atrás da porta - I see you e a aparência pouco importa! [Mas por você me arrumo].
Por você eu sinto medo e segurança. Tesouros são presentes, não se deve perdê-los - não mais de uma vez. 
Desde você, faço lista de músicas, de nomes para meninos, acostumo-me com o frio, estudo inglês e acredito que minha casa é o mundo inteiro. Se me jogo, você me segura; se esqueço, você lembra; se espalho, você junta.
Por você e por mim é que tudo se fez assim: eterno.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

POR QUE NÃO PENSEI NISSO ANTES?

Sabe quando uma coisa sempre esteve ali e você não tinha olhos de ver? Às vezes com o amor é assim também. Às vezes é preciso, antes de tudo, lapidar o coração, o olhar, a vontade; preciso educar os desejos e rever as prioridades. Felicidade nem sempre é aquilo que você imaginou que lhe faria feliz, mas exatamente o contrário, ou melhor, o que você nem cogitou te fazer feliz. E quem disse que a felicidade não pode ser uma rasteira que te derruba e te coloca cara a cara com uma boa surpresa?

É preciso, também, permitir-se mudar, voltar atrás, limpar os olhos, e dizer: “eu errei”. Alguns caminhos só são bem feitos se forem assim, desta maneira. De uma maneira que parece bem torta, entretanto, precisava ser assim de um jeito troncho, que parecia errado e que ajudou a fermentar uma outra possibilidade. É preciso ter coragem para retirar o véu dos olhos.

A vida não é um caminho reto, porque não somos seres retos e constantes. Só assim ela seria uma planície infinita. Mas a gente ainda se sente tentado a teimar com as intuições, se sente convidado pelo perfume da facilidade e é por estas e por outras que a determinados truques nos tornamos presas fáceis: só “bobos” caem em armadilhas de “bobos”. Tanta distração nos faz querer a paixão avassaladora e chamá-la de “amor de nossa vida”; nos garante que tal profissão é a garantia daquele carrão e daquela “casona” e que tudo isso é a meta de nossa vida; nos evidencia que aqueles mililitros de silicone nos seios nos fará ser mais amada, enquanto que eles só vão atrair alguns lobos desmamados e nenhuma gota a mais de amor. Aí sim, por crer nestas baboseiras, é que a vida começa a ficar sinuosa, cheia de vales e tediosa.

Preciso é traçar um mapa para o olhar e começar a colocar como bússola da alma certas coisas que não morrem nunca. Coisas simples, reais e que estão logo ali na frente, debaixo do nosso nariz. Ousemos na arte de manter a atenção voltada para a essência e a vida será surpreendentemente simples, verdadeiramente bela!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

RECEITA DE TUM-TUM-TUM TPUUUF!


Ingredientes:

  • Um rapaz bonito, de olhar lânguido e sorriso inapelavelmente descarado;
  • Uma moça boba o suficiente para se encantar com um rapaz bonito;
  • Escadarias de um prédio antigo da faculdade de Arquitetura;
  • Livros, muitos livros, caídos no chão;
  • Gentileza, bastante;
  • Atenção, bastante;
  • Distração, bastante;
  • Carência, muita;
  • Um dia claro, passarinhos nos fios de alta tensão, micos atrás de ninhos, bancos de alvenaria, diversas pessoas sem rosto;
  • O tempo passando em slowmotion;
  • Mãos frias;
  • Coração quente;
  • Riso;
  • Cheiro bom de lavanda.


Modo de fazer:

Desça as escadarias atrasada para encontrar uma amiga que vai te dar uns textos. Distraia-se com um barulho de carro na rua em frente à faculdade, olhe para os lados e derrube bem os livros. Fique chateada e comece a juntar tudo que caiu, derrube o que restou nas mãos. O rapaz bonito se aproxima e se encontra com a moça boba e nesta hora o coração aquece e acelera – entra aqui o tempo em slowmotion,a gentileza, a atenção e bate tudo com a carência. Com um pouco de sorriso inapelavelmente descarado, o olhar lânguido, o rapaz deixa a moça meio zonza. Ela pega nele e suas mãos estão frias: aumenta o sorriso do rapaz. Passa um vento bom, leva os cabelos dela e num suspiro é o coração dele que acelera ao sentir o cheiro bom de lavanda vindo da moça. Ambos são esquecidos por um tempo, muito mais que meia hora, uma hora, duas horas num banco de alvenaria, com o dia claro, passarinhos nos fios de alta tensão, micos atrás de ninhos e diversas pessoas sem rosto.

Sirva esta receita de Tum-tum-tum tpuuuf! a vida toda, rende para uma porção de gente. Rende para um mundo inteiro, uma vida inteira.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

BRIGADEIRO






Qualquer momento é uma desculpa para comer brigadeiro. Está em festa? Ele! Terminou um namoro? Ele! Curinga das línguas felizes e tristes, este doce feito com a simplicidade culinária, merece o nosso total respeito. Afinal, a quem não toma remédio para dormir e não pode comprar petit gateau para amainar a fome de doce e calma, o brigadeiro é a salvação!


Ingredientes:
.Um bocado de tristeza, tédio, frio ou alegria, amigos;


.Chocolate em pó ou raspas de uma barra de chocolate meio-amargo que sobrou daquela cobertura de bolo;


.Lágrima e riso;


.Leite condensado. O quanto quiser e o mesmo para o chocolate. Depende do tamanho do buraco que queira tapar. Se for no estômago, não exagere. Se for no coração: overdose nunca é demais. Parece-me que na alegria a gente não se excede nestas coisas; a alegria já é tão doce que nos tira o apetite;


.Manteiga; tem gente que coloca. Um colherzinha está bom, só para dizer que pôs [vai que sirva mesmo para alguma coisa na receita].


Modo de fazer:
Pegue uma panela de teflon para que a menor quantidade da substância fique grudada no recipiente. Retire a culpa da mente. Ponha o leite condensado [de acordo com aquela quantidade referencial de desespero ou festejo], depois misture o chocolate e a manteiga. Leve ao fogo brando e mexa. Mas se você não mexer a toda hora e formar aquelas bolotas meio queimadas, a meu ver, ele fica perfeito. Faz parte do apreciar brigadeiresco, sentir aquelas bolinhas grudarem nos dentes e enquanto a conversa com os amigos flui, você vai tentando dissolver ou tirá-las com a ponta da língua.


Quando sentir que já se formou aquela pasta homogênea, ou pseudo-homogênea, desligue o fogo. Pegue uma travessa, um prato grande, uma coisa que sirva para espalhar a pasta salvadora e retire-a da panela com o auxílio da colher que usou para mexê-la. Quando retirar tudo, lamba a colher. Quando a panela esfriar, passe o dedo no que sobrar [não sem antes disputar com quem lhe ajudou ou só ficou olhando e esperando para comer].


Ponha na geladeira a travessa com o brigadeiro e espere esfriar. Se não tiver paciência, coloque-a no congelador mesmo.


Mostre aos amigos onde eles podem pegar as colheres, pegue a sua, sentem-se à mesa ou no chão, de maneira que o brigadeiro fique no meio, ao alcance de todos; como num ritual tribal em volta de uma fogueira que aquece o frio da alma e ilumina as histórias. Salivem, suspirem e comecem pelas bordas.

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sábado, 3 de julho de 2010

SAUD"ARDE".

Não, não sai! Não vai, não me deixa...!

Eu olho você partir e sinto que algo em mim explode

Como se mil fagulhas mandassem que eu te esqueça

E ver você indo é a própria morte.

Entenda, ainda guardo em mim a fragilidade

De quem não passa de mera humana

A saudade que em mim agora arde,

Não é o frágil prazer que somente engana.

É mais, é certeza que você me ama;

É um passo de leve, um laço no infinito,

É o abraço apertado que cala o grito;

Ao asno faminto - um tufo de grama.

Fica só mais 1000 anos comigo,

É o tempo que preciso para não ter saudade;

Tua força é o meu mais forte abrigo,

E eu sei que sou a tua melhor parte.

Acordo, abro os olhos para mais um dia,

Você teve que ir, eu precisei voltar,

Mas quando a noite chega se vai a agonia,

Pois no sono do corpo posso te encontrar.